Sob o lema «Dar Luz à Palavra», o encontro reuniu especialistas, bispos, artistas e delegados das Dioceses, incluindo o delegado do Ordinariato Castrense, para refletir sobre a beleza como linguagem de fé, a museologia e a renovação dos espaços litúrgicos.

LAMEGO — A cidade de Lamego acolheu esta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, as III Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais da Igreja. Subordinada ao tema «Dar Luz à Palavra: a importância dos bens culturais na ação de evangelizar e de anunciar», a iniciativa decorreu no auditório do Museu Diocesano, reunindo responsáveis eclesiais, historiadores, docentes e criadores contemporâneos.

A organização esteve a cargo do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja, sob a direção de Fátima Eusébio, com o acolhimento da Diocese de Lamego. A organização destacou a aposta deliberada na descentralização do evento para o interior do país.

A beleza como expressão da Encarnação

Na sessão de abertura, o bispo da diocese anfitriã, D. António Couto, deu as boas-vindas aos participantes traçando um minucioso roteiro pelos tesouros da região — da Sé de Lamego aos mosteiros de Cister em São João de Tarouca e Salzedas —, alertando simultaneamente para a urgência de proteger o património histórico do interior contra a degradação e o furto.

Por seu turno, D. Nuno Brás, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura e Bens Culturais, assinou a intervenção de fundo, na qual rejeitou a perspetiva redutora que encara o património eclesial como meras «coisas velhas» ou encargos pesados. Fundamentando-se no mistério da Encarnação, sublinhou que a arte sacra constitui uma verdadeira manifestação do infinito no finito e uma proclamação sensorial da fé: «O bem cultural é expressão da fé da Igreja numa comunidade concreta e convite a ultrapassar os sentidos», defendeu.

Do diálogo litúrgico à educação nas escolas

Ao longo do dia, os trabalhos desdobraram-se em múltiplos eixos temáticos:

Iconografia e Arte Contemporânea: Barbara Aniello, docente da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, abordou o trânsito da clássica Biblia Pauperum para a Via Pulchritudinis (o caminho da beleza), analisando como criadores plásticos contemporâneos traduzem o mistério cristão em novas formas e linguagens sensíveis.

Liturgia e Espaço Sagrado: O Pe. João Norton de Matos, sj, salientou a interdependência entre património, liturgia e anúncio, propondo critérios claros para a readequação dos edifícios históricos ao culto atual sem perder a autenticidade e a dignidade litúrgica.

Literacia Patrimonial no Ensino: Representantes do Secretariado Nacional de Educação Cristã debateram os roteiros da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), defendendo a urgência de «educar o olhar» dos jovens para descodificar as narrativas e símbolos bíblicos presentes na cultura.

Apresentação de Atas: Foram apresentadas por Isabel Feijão (Património Cultural, I.P.) as atas da edição anterior das Jornadas, com ênfase nas conclusões da Carta de Princípios de Conservação e Restauro e na necessidade de conservação preventiva.

Museus vivos e novos caminhos artísticos

No período da tarde, Pablo Delclaux de Muller, da Conferência Episcopal Espanhola, realçou a oportunidade que as visitas turísticas aos monumentos oferecem para «fazer falar as pedras» e comunicar a transcendência a crentes e não crentes.

De seguida, Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, desafiou a ideia convencional de museu ao propor uma «museologia da contemplação», na qual o espaço museológico funciona como construtor de pontes e espaço vivo de encontro. Durante o debate, abordaram-se ainda questões sensíveis em torno da circulação de peças de culto e da relação entre a autoria das obras e o seu valor litúrgico e patrimonial.

O encontro culminou com uma mesa redonda dedicada aos novos caminhos artísticos, com testemunhos e reflexões dos artistas Paulo Neves, Pe. Christopher Sousa, Lígia Rodrigues e Tânia Oliveira Pires, terminando o programa com uma visita guiada aos espaços reservados da Sé Catedral de Lamego.