A verdade vos libertará. (Jo 8, 32)
No dia de Quarta-Feira de Cinzas iniciamos uma caminhada espiritual de conversão. Durante quarenta dias, nós, cristãos, somos convidados a preparar-nos para o mistério central da nossa fé e da nossa libertação: a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, a Páscoa. Gostaria de vos propor, para esta Quaresma, um caminho de conversão à Verdade.
Por ocasião da Festa das Tendas, quando os judeus subiam a Jerusalém para recordar os quarenta anos no deserto — tempo em que Israel viveu em tendas, dependente apenas de Deus —, Jesus dirige-se àqueles que acreditavam n’Ele e diz-lhes: «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» (Jo 8,31-32). Jesus exorta os seus interlocutores a não ficarem por uma adesão superficial, mas a permanecerem na sua Palavra, para conhecerem a verdade que redime, dignifica e liberta.
Na tradição bíblica, a verdade não é um conceito abstrato ou meramente teórico, nem um simples objeto de conhecimento intelectual. Conhecer a verdade é muito mais do que dominar um saber. Na Bíblia, a verdade surge profundamente ligada à fidelidade à Aliança de Deus com a humanidade. Por isso, há de ser enformada pelo amor e pela fidelidade, ser fiel a Deus e ao próximo, de modo a criar confiança recíproca. Conhecer a verdade é entrar numa relação de autenticidade, de fidelidade e lealdade connosco próprios, com os outros e com Deus.
A verdade não se limita ao campo das palavras. Abrange também o testemunho de vida, a coerência entre o que dizemos e o que somos. A verdade pratica-se. Por outro lado, jamais se possui plenamente. A verdade procura-se. É uma conquista progressiva, que exige esforço, sinceridade e humildade. “Procura a verdade como alguém que está prestes a encontrá-la, e encontra-a com a intenção de continuar a procurá-la.” (Santo Agostinho)
A busca da verdade é um anseio profundo do coração humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica. No entanto, perante uma tarefa tão exigente, muitos preferem atalhos ou mesmo desculpas. Uns proclamam a incapacidade do homem para alcançar a verdade; outros negam que exista uma verdade válida para todos. Tanto o cepticismo como o relativismo acabam por endurecer o coração, tornando as pessoas frias, vacilantes, distantes dos outros e fechadas em si mesmas. Há ainda quem interprete mal esta busca, enveredando pelo caminho da irracionalidade ou do fanatismo, fechando-se na «sua verdade» e tentando impô-la aos demais.
Gostaria de propor a todos vós — militares, polícias e civis que servis as Forças Armadas e as Forças de Segurança, assim como aos antigos combatentes e aos familiares de todos — que façais deste tempo quaresmal um caminho de busca da verdade. Sim, da verdade que liberta.
Fé e razão são duas vias necessárias e complementares nesta busca. Todo o ser humano foi criado com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotado de razão. Mas a razão, por si só, não basta: é grande, mas não é absoluta; precisa de horizonte, precisa de luz. Precisa da fé. A fé não substitui a razão; oferece-lhe uma luz maior. Se, pela criação, Deus concedeu ao ser humano a razão para procurar a verdade, pela Revelação concedeu-lhe a fé que ilumina essa mesma razão. Assim, ambas alcançam a plenitude da verdade, que não é uma ideia abstrata nem um simples conceito, mas uma realidade viva: Jesus Cristo que é a medida de todo o Homem. Aproximar-se de Jesus Cristo é aproximar-se da verdade acerca de Deus e do Homem.
Além disso, a verdade sobre o homem é um pressuposto indispensável para a verdadeira liberdade. É nela que descobrimos os fundamentos de uma ética com a qual todos se podem confrontar eque contém formulações claras sobre a vida e a morte, os deveres e os direitos, a família e a sociedade, enfim, sobre a dignidade inviolável da pessoa humana. Este património ético pode aproximar culturas, povos e religiões, autoridades e cidadãos, cidadãos entre si, os crentes em Cristo e aqueles que não creem n’Ele. Porque a verdade, quando é servida com humildade, não divide: liberta e une.
Chegados aqui, eis três propostas concretas:
Verdade em mim
A conversão à Verdade começa no interior. Reservar diariamente alguns momentos de silêncio, fazer um exame sincero de consciência e confrontar a própria vida com o Evangelho vivo, que é Jesus Cristo. Não ter medo de encontrar a verdade de mim próprio, mesmo quando ela revela mentira, pecado ou fragilidade. A Quaresma é tempo de lucidez humilde. Recorda Santo Agostinho: “Volta para dentro de ti; no interior do homem habita a verdade.” É no Sacramento da Reconciliação que esta verdade se torna misericórdia: ali não encontramos condenação, mas um Deus que, dizendo-nos a verdade sobre o nosso pecado, nos restitui a liberdade dos filhos. É aí que se experimenta que a Verdade liberta.
Verdade na palavra
Inspirados por Santo Tomás de Aquino, que define a verdade como adequação da inteligência à realidade, somos chamados a dizer a verdade a partir dos factos e não das suposições; com rigor e linguagem precisa; evitando insinuações, suspeitas e meias-verdades; sem descontextualizar o que ouvimos ou vemos. O respeito pela verdade é exigência da justiça e da caridade, condenando a mentira, a calúnia e a difamação. Nem toda a verdade precisa de ser dita — o segredo legítimo deve ser guardado —, mas tudo o que é dito deve ser verdadeiro. A palavra é instrumento de comunhão; usada sem verdade, torna-se arma que fere destrói e mata.
Verdade no agir
A verdade deve descer às decisões concretas. Agir com transparência na política, na economia e na administração da coisa pública é uma forma exigente de caridade social. Para vós, militares e elementos das Forças de Segurança, esta verdade ganha particular densidade no terreno: nas decisões difíceis tomadas sob pressão; no uso responsável da autoridade e, quando necessário, da força; na obediência leal que nunca abdica da consciência; na fidelidade às instituições, que jamais pode significar infidelidade à dignidade da pessoa humana. A autoridade só é verdadeiramente legítima quando está enraizada na verdade e ordenada ao bem comum. Resistir ao lucro injusto, rejeitar qualquer forma de apropriação do bem público, agir com integridade mesmo quando ninguém vê: tudo isto é viver a verdade. Não basta cumprir a lei; é preciso agir de acordo com a ética, porque a legalidade sem moralidade pode transformar-se num formalismo vazio. A verdade no agir constrói confiança, fortalece a honra das instituições e faz do serviço à Pátria um verdadeiro serviço ao homem.
Por fim, durante a Quaresma somos chamados a abdicar de algo legítimo — um bem, um conforto, um hábito — para ordenar o nosso coração para Deus e manifestar, na caridade, o amor ao próximo. A este gesto chamamos Renúncia Quaresmal. O fruto desta renúncia, neste ano, destina-se a ajudar as vítimas do mau tempo que afetou o Centro de Portugal.
Que Maria, Rainha da paz, nos guie nesta caminhada quaresmal.
Com a minha bênção e oração.
Lisboa, 18 de fevereiro de 2026
† Sérgio Manuel Ribeiro Dinis
Bispo do Ordinariato Castrense de Portugal
