Em Roma, no dia seguinte à audiência papal, D. Sérgio Dinis presidiu à Eucaristia na igreja nacional e deixou uma mensagem dirigida às Forças de Segurança e às Forças Armadas: “Uma farda impecável sobre um coração duro é o camelo que engolimos depois de termos coado o mosquito.”

Roma, 25 de agosto de 2026 – A Igreja de Santo António dos Portugueses, no coração de Roma, acolheu esta manhã a Eucaristia presidida pelo Bispo do Ordinariato Castrense de Portugal, D. Sérgio Dinis, no contexto da visita das autoridades portuguesas ao Vaticano e da audiência papal concedida na véspera. A celebração contou com a concelebração dos capelães castrenses presentes e reuniu altos representantes da Defesa Nacional, da Administração Interna e das Forças de Segurança portuguesas.

Entre os presentes estiveram o Comandante-Geral da Guarda Nacional Republicana, Tenente-General Rui Alberto Ribeiro Veloso, o Diretor Nacional da Polícia de Segurança Pública, Superintendente-Chefe Luís Carrilho, o Secretário-Geral do Ministério da Defesa Nacional, Tenente-General Campos Serafino, e o Diretor do Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA), Tenente-General Morgado Batista, além de outros dirigentes dos ministérios da Defesa Nacional e da Administração Interna.

Na homilia, intitulada “Santo António dos Portugueses”, o prelado partiu da figura do padroeiro da igreja para sublinhar a imprevisibilidade das missões e a necessidade de firmeza interior. “Estamos em Roma e estamos em casa. Esta igreja é chão português no coração da Cidade Eterna”, afirmou, recordando que Santo António “partiu para Marrocos à procura do martírio, e foi um naufrágio que o pôs no caminho de Deus”. Dirigindo-se aos militares e agentes presentes, acrescentou: “Vós, que sabeis o que é receber uma missão e ver o mar mudá-la, entendeis bem esta história.”

D. Sérgio Dinis retomou a palavra que o Papa Francisco dirigiu na véspera aos membros do Ordinariato Castrense — «Tornai-vos fortes no Senhor» — e explicou que a firmeza pedida “não nasce da nossa têmpera”, mas da graça de Deus. “Não somos nós que nos aguentamos de pé: é Ele que nos escora”, declarou.

O bispo alertou ainda para o risco de uma vida dupla entre a aparência institucional e a conduta concreta. Comentando o Evangelho do dia, afirmou que Jesus “não despreza o cuidado com as pequenas coisas” — como a farda, a disciplina, a hierarquia e o rigor do gesto —, mas adverte que se pode ter “o copo lavado por fora e sujo por dentro”. E concretizou: “O interior do copo é aquilo que se faz quando ninguém vê. É como se trata o recruta mais frágil, o detido, o civil desarmado que nos olha do outro lado da estrada. Uma farda impecável sobre um coração duro é o camelo que engolimos depois de termos coado o mosquito.”

A homilia recordou ainda a figura do centurião de Cafarnaum, referida pelo Santo Padre, como exemplo de autoridade reconhecida e de lucidez. “Não foi a patente que Jesus admirou; foi a lucidez de quem sabe de quem depende”, sublinhou D. Sérgio Dinis, acrescentando que “foi de um militar, e não de um doutor da Lei, que Ele disse: ‘não encontrei tanta fé em Israel’”.

O prelado evocou também os dois jovens militares que morreram na passada sexta-feira ao parar para socorrer alguém. “Não foi um gesto de fachada. Foi justiça, foi misericórdia, foi fidelidade. Naqueles dois soldados, o interior do copo estava limpo.”

Aos capelães castrenses, D. Sérgio Dinis recordou o pedido do Papa para que “acolham, escutem e permaneçam ao lado dos seus”. E concluiu: “Esse é o nosso posto: não fora da fileira, mas dentro dela.”

A celebração em Santo António dos Portugueses insere-se numa deslocação oficial a Roma que incluiu a audiência com o Santo Padre e reforçou a ligação entre as instituições militares e de segurança portuguesas e a Santa Sé.