O Papa Leão XIV, na sua encíclica Magnifica Humanitas, convoca a humanidade para uma escolha decisiva nesta mudança de época: edificar a Torre de Babel, onde o poder se absolutiza e a pessoa se reduz a dado e a desempenho, ou reconstruir Jerusalém, onde cada um assume a sua parte da muralha e o povo, unido na presença de Deus, renasce pela corresponsabilidade corajosa e pela comunhão fraterna.

Hoje, em Angra do Heroísmo, dois homens disseram-nos, cada um à sua maneira, que este apelo não é abstrato nem distante. É urgente. É nosso.

Miguel Monjardino afirmou que uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal. Que o longo ciclo histórico nascido em 1945 chegou ao fim. Que estamos a entrar num tempo radicalmente novo, sem mapas conhecidos, sem rotas já navegadas. Que a desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos. E que uma nação livre não deve ter medo. Deve estar prevenida e preparada.

O Presidente da República recordou que falar do mar é falar da identidade portuguesa. Que, enquanto outros viam o fim da terra, os portugueses viram o início de um caminho. Que Portugal precisa de coragem para fazer escolhas difíceis, de humildade para reconhecer os seus limites e de ambição para não se conformar com menos do que merece. E que a esperança não é uma ilusão. É uma das palavras que combatem a polarização e abrem o futuro.

Como Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança de Portugal, ouvi estas palavras com o coração atento. E sinto que elas nos interpelam a todos, mas de modo muito particular aos homens e às mulheres que vestem uma farda ao serviço da pátria.

Vós sois, por vocação e por missão, construtores de Jerusalém. Não edificais torres de orgulho. Guardais muralhas de paz. Em cada missão cumprida, em cada fronteira defendida, em cada vida protegida, estais a afirmar, com o vosso corpo e com a vossa entrega, que Portugal não se rende ao medo. Que há quem permaneça firme quando a tempestade ameaça o horizonte.

Camões chegou a esta ilha exausto, pobre e só. Mas trazia consigo o maior tesouro que uma geração pode legar à seguinte: a palavra que atravessa o tempo e dá nome à alma de um povo. Há algo de profundamente verdadeiro nessa imagem. O homem que regressa sem nada nas mãos, mas traz tudo dentro do peito. É assim que eu olho para cada um de vós quando regressais das missões. Sem o brilho que mereceis, mas com uma dignidade que ninguém vos pode tirar.

Somos um povo com quase nove séculos de história. Essa memória longa não deve paralisar-nos. Deve dar-nos raízes fundas e horizonte largo. Não somos espetadores desta mudança de época. Fomos sempre navegadores. E os navegadores não têm medo do mar. Conhecem-no, respeitam-no, preparam-se para ele e partem.

Uma nação crente sabe, além disso, que não está só. Sabe que há um Deus que caminha na história, silencioso e fiel, como o vento percorre o Atlântico. Sabe que o futuro não pertence ao mais forte, mas ao mais humano. Que a fraternidade não é ingenuidade nem fraqueza. É o único realismo que perdura.

Neste Dia de Portugal, peço ao Santo Anjo Custódio da nossa pátria, que a Igreja celebra precisamente hoje, que vele por este povo que guarda com fidelidade ao longo dos séculos. Que nos dê a coragem de Camões, a clareza de quem conhece o seu tempo e a esperança que só o Evangelho, em toda a sua beleza, sabe oferecer. E peço a Nossa Senhora, Mãe de Deus e Rainha de Portugal, que interceda por nós neste tempo de mudança, para que não tenhamos medo, mas fé. Não muros, mas caminhos.

Portugal não é longe demais. O amanhã não é longe demais.

+ Sérgio Dinis, Bispo das Forças Armadas e de Segurança de Portugal.