Fátima, 16 de junho de 2026 — Na manhã do segundo dia das Jornadas Pastorais do Episcopado Português, o Salão Bom Pastor do Centro Pastoral Paulo VI acolheu duas intervenções do Professor Juan Narbona, da Pontifícia Universidade de Santa Cruz, dedicadas à presença dos sacerdotes nas redes sociais e às estratégias digitais para a comunicação eclesial.

Missionários, Turistas e Tecnocépticos

O Professor Narbona abriu a sua apresentação identificando três perfis distintos entre os sacerdotes face ao mundo digital: os missionários digitais, que encaram a internet como campo de evangelização; os turistas digitais, que navegam pelas redes sem grande comprometimento; e os tecnocépticos, que resistem ou se mantêm à margem destas plataformas. O orador desafiou os presentes a reconhecerem o seu perfil e a procurarem um equilíbrio saudável, sublinhando que qualquer sacerdote que utilize o WhatsApp já possui, de facto, uma identidade digital — queira ou não.

Recordou que a presença na internet não é neutra: a forma como nos apresentamos, o que publicamos e com quem interagimos comunica sempre algo sobre quem somos. A internet, afirmou, é hoje um verdadeiro espaço de missão, comparável em alcance ao da imprensa ou da televisão noutras épocas.

«Dicas» para Sobreviver nas Redes Sociais

A segunda conferência da manhã apresentou orientações práticas para os sacerdotes navegarem as redes sociais com discernimento, autenticidade e equilíbrio. Entre os pontos destacados:

Cultivar uma identidade clara e coerente. A imagem digital deve refletir quem verdadeiramente se é. O sacerdote não deve esconder a sua identidade, mas também não deve construir uma persona artificial para agradar ao público. A coerência entre a vida real e a vida online é fundamental.

Saber o que se partilha e porquê. Tudo o que se publica comunica uma posição. Antes de partilhar um artigo, uma fotografia ou um comentário, importa perguntar: o que estou a dizer com isto? Está alinhado com a minha missão e com o Evangelho que anuncio?

Evitar a polarização. O orador alertou para o risco de os sacerdotes se tornarem figuras associadas a posições políticas, futebolísticas ou ideológicas divisivas. As redes sociais amplificam facilmente declarações tiradas do contexto, podendo comprometer a credibilidade pastoral.

Gerir os limites de tempo e de disponibilidade. A tentação de estar sempre conectado e de responder a todas as mensagens a qualquer hora cria dependências e desgaste. Narbona sugeriu que os sacerdotes definam horários claros para a utilização das redes, à semelhança das regras que estabeleceriam para qualquer outra atividade pastoral.

Cuidar das relações humanas nas plataformas digitais. Os vínculos criados nas redes sociais são reais e implicam responsabilidades. Um simples like numa publicação pode ser interpretado como endorsement. É necessário cuidado, especialmente na relação com pessoas vulneráveis ou em situação de crise.

Equilibrar a vida digital com a vida física. O orador propôs um exercício de honestidade: comparar o número de horas passadas nas redes com as horas dedicadas ao confessionário, à visita aos doentes ou ao acompanhamento espiritual. A vida online não pode suplantar a missão presencial.

Trabalhar em equipa. A comunicação digital não deve ser uma tarefa solitária. O orador incentivou os sacerdotes a colaborarem com leigos competentes, a criar culturas de comunicação dentro das suas comunidades e a não improvarem sozinhos estratégias que beneficiariam de discernimento partilhado.

Diálogo com os participantes

O período de perguntas revelou a riqueza e a complexidade dos desafios que a Igreja em Portugal enfrenta neste domínio. Foram abordadas questões como a linguagem eclesial — frequentemente incompreensível para quem está fora do ambiente da fé —, a necessidade de investimento profissional e sustentado na comunicação digital, e o paradoxo de a Igreja produzir conteúdos de qualidade que acabam por ser precedidos, no YouTube ou noutras plataformas, por publicidade de conteúdo espiritual alheio ou mesmo contrário ao católico.

Foi também levantada a questão da inversão geracional na transmissão do conhecimento tecnológico: são os mais jovens quem ensina os mais velhos a utilizar as ferramentas digitais, o que desafia os modelos tradicionais de autoridade e formação dentro da Igreja. O Professor Narbona respondeu encorajando os sacerdotes a aproveitar este momento como oportunidade de diálogo intergeracional, aprendendo com os jovens sem abdicar da sabedoria e do discernimento que a experiência pastoral confere.

Os trabalhos das Jornadas Pastorais prosseguem esta tarde com intervenções sobre IA e Espiritualidade e sobre a fundamentação antropológica e teológica da inteligência artificial à luz da encíclica Magnificat Humanitas, com encerramento previsto pelo Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.