Fátima, 16 de junho de 2026 — A sessão da tarde do segundo e último dia das Jornadas Pastorais do Episcopado Português ficou marcada por intervenções de grande densidade espiritual e teológica, culminando com as conclusões e encerramento pelo Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

IA e Espiritualidade: o desafio de «habitar» a nova realidade

A sessão iniciou-se com a intervenção da Doutora Eugénia Abrantes, especialista em Espiritualidade e Mística, que propôs uma reflexão sobre a dimensão espiritual do ser humano no contexto da inteligência artificial.

Partindo da convicção de que o ser humano é um ser complexo — biológico, social, cultural e espiritual —, a oradora sublinhou que a dimensão espiritual não se reduz à sensibilidade nem à racionalidade: é a capacidade de transcender os próprios limites, de amar, de criar narrativas de sentido, de viver a presença de Deus. Esta dimensão, recordou, é especificamente humana e não pode ser replicada por nenhuma máquina.

Apresentando dados de estudos recentes, a Doutora Eugénia Abrantes alertou para uma realidade preocupante: uma percentagem significativa de jovens das gerações mais novas atribui à inteligência artificial o mesmo nível de autoridade espiritual que a um líder humano. Ao mesmo tempo, cerca de um terço dos cristãos praticantes já recorre a sistemas de IA para aconselhamento ético e espiritual. Esta realidade, afirmou, não pode ser ignorada pela Igreja.

Evocando o Papa Paulo VI, João Paulo II, Francisco e Leão XIV, a oradora percorreu o pensamento do magistério sobre a técnica, concluindo que a espiritualidade que o tempo presente exige é uma espiritualidade eucarística — de humildade, de serviço e de amor —, capaz de habitar a inteligência artificial sem ser por ela colonizada.

A intervenção terminou com uma imagem sugestiva: a da pérola, formada quando um elemento estranho entra na concha e esta, em vez de o expulsar, o envolve e transforma. É assim, disse, que o cristão é chamado a relacionar-se com a inteligência artificial — não a rejeitar, não a idolatrar, mas a envolver e transformar à luz do Evangelho.

A Doutora Eugénia identificou três grandes desafios pastorais: desaprender modelos mentais rígidos que impedem de encarar as novas realidades; integrar o pensamento exponencial, superando a lógica linear que caracteriza ainda grande parte das instituições eclesiais; e assumir o amor como princípio operativo — não como sentimento vago, mas como princípio criativo e transformador capaz de entrar onde a inteligência não chega.

Treinar com IA: exercício prático com a Agência Ecclesia

Octávio Carmo, da Agência Ecclesia, conduziu de seguida uma sessão prática de demonstração do uso da inteligência artificial em contexto pastoral e eclesial. Através de exemplos concretos — desde a pesquisa litúrgica e a redação de mensagens de conforto até à elaboração de estratégias de comunicação institucional —, o orador mostrou as potencialidades e os limites dos principais sistemas de IA disponíveis.

Os exercícios práticos permitiram aos participantes perceber, de forma direta, que a IA responde com rapidez e aparente coerência, mas carece de contexto, de conhecimento relacional e de consciência moral. Uma mensagem de conforto gerada automaticamente pode ser tecnicamente correcta, observou Octávio Carmo, mas «falta-lhe quase tudo» — o nome, a história, a presença, o rosto. Sublinhou ainda a importância da qualidade da pergunta colocada ao sistema — o chamado prompt — como fator determinante da qualidade da resposta obtida.

O orador alertou igualmente para o risco de as respostas da IA parecerem altamente credíveis quando, na realidade, assentam em dados incompletos, tendenciosos ou simplesmente errados — as chamadas alucinações dos sistemas generativos. A vigilância crítica permanente, concluiu, é indispensável.

Fundamentos Antropológicos e Desafios Teológicos da IA

A última grande intervenção das Jornadas coube ao Professor João Manuel Duque, da Universidade Católica Portuguesa, que apresentou uma reflexão filosófica e teológica densa sobre a relação entre os seres humanos e as máquinas inteligentes, à luz da encíclica Magnificat Humanitas.

O Professor Duque propôs uma leitura analógica desta relação — nem dualista, que opõe humanos e máquinas em competição, nem monista, que os funde numa única realidade informacional. A analogia, explicou, permite reconhecer simultaneamente a diferença e a relação, sem reduzir um ao outro.

Identificou cinco traços essenciais da inteligência humana que a distinguem das máquinas inteligentes: o senso comum e a capacidade de ironia; a reflexividade e a autoconsciência; o enquadramento no mundo da vida, com toda a riqueza de contexto que isso implica; a capacidade de operar com lógica aproximativa perante a particularidade das situações; e, sobretudo, o seu carácter encarnado — o facto de o conhecimento humano ser inseparável do corpo, da intuição, da emoção e do sentimento.

Numa passagem de grande impacto, o Professor Duque destacou duas experiências humanas que nenhuma máquina poderá jamais ter: nascer — experimentar-se como vindo de alguém, com uma identidade única e irrepetível — e morrer — e, em particular, morrer por alguém ou por uma causa. São precisamente estas experiências de alteridade radical, afirmou, que revelam o núcleo da humanidade e que encontram a sua expressão mais plena em Jesus de Nazaré.

À luz da cristologia, o Professor Duque propôs que a verdadeira humanidade não reside nas capacidades cognitivas ou operacionais do ser humano — que as máquinas poderão um dia imitar ou superar —, mas na capacidade de amar livremente e gratuitamente, de ser a partir de outro e para outro. É aí que reside a imagem de Deus no ser humano, e é aí que a Igreja deve continuar a investir.

Concluiu alertando para o risco de, fascinados pelas capacidades das máquinas, os humanos esquecerem onde se encontra a sua verdadeira humanidade — algo que, disse, já acontece há séculos, muito antes da inteligência artificial.

Conclusões e Encerramento

As Jornadas encerraram com a leitura de um texto de síntese que procurou recolher os fios condutores dos dois dias de trabalho. O documento sublinhou que a inteligência artificial «não altera apenas os meios de comunicação, mas o modo como as pessoas procuram informação, tomam decisões e encontram respostas» — o que obriga a Igreja a repensar não apenas os instrumentos da evangelização, mas a própria natureza da sua presença no mundo contemporâneo.

O texto identificou quatro dimensões de renovação pastoral urgentes: pastoral — ir ao encontro das pessoas nos espaços digitais, sem esperar que elas venham; cultural — compreender a IA como parte de uma nova gramática social, capaz de influenciar a visão da pessoa e da liberdade; comunicacional — comunicar com clareza, autenticidade e proximidade, e não apenas publicar conteúdos; e institucional — integrar novas competências e responsabilidades éticas nas estruturas eclesiais.

O Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Vergílio Antunes, ao encerrar as Jornadas, agradeceu a todos os oradores e participantes e convidou as comunidades a continuar a reflexão iniciada, com o auxílio da encíclica Magnificat Humanitas. Sublinhou que o desafio da inteligência artificial deve passar a fazer parte das catequeses e da formação em todos os níveis da vida eclesial, dado o impacto que tem já hoje na existência de crianças, jovens, adultos e idosos.

Citando o Professor João Duque, o Presidente da CEP deixou duas palavras-chave como síntese do caminho percorrido: fascínio e recusa — as duas posições extremas que ainda dominam grande parte da relação com a IA —, convidando a Igreja a encontrar uma terceira via, mais serena e mais fecunda, ao serviço do único objetivo que permanece sempre essencial: o anúncio da fé.