D. Sérgio Dinis desafiou os agentes da Autoridade Marítima a serem “casa segura” onde se pode regressar, durante homilia na Igreja Matriz de Ponta Delgada
A Polícia Marítima assinalou, no passado domingo, 13 de setembro, o seu 107.º aniversário com uma Celebração Eucarística na Igreja Matriz de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, nos Açores. A Missa foi presidida pelo Ordinário Castrense de Portugal, D. Sérgio Dinis, que na homilia exortou os agentes da Autoridade Marítima a pautarem a sua missão pelo perdão e pela graça, sem nunca abdicarem do rigor.
“Há dívidas que não se pagam — largam-se”
Partindo das leituras do dia, o bispo refletiu sobre a parábola do servo que, tendo sido perdoado de uma dívida impagável pelo seu senhor, se recusou a perdoar um companheiro que lhe devia uma quantia insignificante.
“Diante de Deus, nenhum de nós está verdadeiramente em dia”, afirmou D. Sérgio Dinis, sublinhando que a salvação cristã não consiste em “recebermos um prazo mais alargado para pagarmos o que devemos”, mas em Alguém que “comovido até às entranhas, decide rasgar o papel, riscar a dívida”.
O prelado recordou que perdoar é também libertar: “É largar a amarra que nos prende a um cais onde já não queremos permanecer. Enquanto a amarra estiver presa, podemos ter o motor a trabalhar e o leme na mão: não saímos do lugar.”
“Uma polícia sem justiça seria inútil. Uma polícia com rancor seria perigosa”
Dirigindo-se diretamente aos membros da Polícia Marítima, o bispo reconheceu a natureza exigente da sua missão — “levantais autos, investigais ocorrências e sinistros, fiscalizais, aplicais a lei” — mas alertou que “o Evangelho de hoje não vos dispensa do rigor. Jesus não aboliu a justiça. Disse apenas que a última palavra não pertence ao livro de contas.”
“O perdão de Deus não apaga o auto; apaga o ódio de quem o escreve”, afirmou, numa fórmula que sintetiza o equilíbrio entre justiça e misericórdia. E acrescentou: “Uma polícia sem justiça seria inútil. Uma polícia com rancor seria perigosa.”
D. Sérgio Dinis elogiou ainda o testemunho silencioso dos agentes: “Vós já pregais este Evangelho sem palavras! Sempre que uma embarcação vossa sai, de dia ou de noite, quando chega um alerta, ninguém pergunta primeiro se o náufrago merecia ser salvo, se levava colete, se tinha ignorado o aviso ou se tinha saído sem licença. Sai-se. E vai-se buscá-lo. Isso tem um nome antigo na nossa fé: chama-se graça.”
“Pertencemos ao Senhor — vivos e mortos”
Citando São Paulo, o bispo lembrou que “quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor”, expressão que, no contexto marítimo, ganha particular densidade. “Nesta Eucaristia estão também presentes, na nossa memória e na nossa oração, os camaradas que morreram ao serviço e todos aqueles a quem o mar não devolveu. E a fé diz-nos aquilo que nenhum relatório pode dizer: nenhum deles ficou perdido. O mar não tem a última palavra.”
O Ordinário Castrense referiu-se ainda às palavras do Comandante-Geral da Polícia Marítima, Vice-Almirante Diogo Arroteia, que ao tomar posse afirmou inclinar-se para “a opção mais equilibrada entre produto operacional e a componente humana”. “Guardei esta frase, porque é exatamente aí que a parábola de hoje se decide”, comentou D. Sérgio Dinis, observando que o servo da parábola teve “um produto operacional impecável”, mas falhou na componente humana.
A concluir, o bispo formulou votos: “Que o Senhor vos conserve o rigor e vos livre do rancor. Que vos dê mãos firmes para agarrar e coração livre para largar. Que o Senhor Santo Cristo dos Milagres vos guarde nas missões de que ninguém fala. E que Nossa Senhora, Estrela do Mar, vos traga sempre a casa.”
A celebração contou com a presença de Sua Excelência o Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, Dr. Álvaro Castelo Branco, do Comandante-Geral da Polícia Marítima, Vice-Almirante Diogo Arroteia, do Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada, Vice-Almirante Pedro Sousa Costa, e do Superintendente do Pessoal, Vice-Almirante Rodrigues Pinto, entre outras entidades civis e militares, oficiais, sargentos e agentes da Polícia Marítima, bem como o Vigário Geral Castrense, Pe. Diamantino Teixeira, o Capelão Adjunto para a Polícia de Segurança Pública, Pe. Luís Leal, e o Capelão Bruno Espínola.
A Polícia Marítima, criada em 1919, celebra este ano 107 anos de serviço à comunidade marítima portuguesa, assegurando funções de autoridade marítima, fiscalização, salvamento e segurança nos espaços marítimos sob jurisdição nacional.


















